Pesquisa encontrou associação entre o uso da pílula e episódios de alimentação motivada por emoções, mas não comprovou causa e efeito.

 

Anticoncepcional pode estar relacionado à fome emocional? Entenda o que a ciência descobriu

 

Alimentar-se é cuidar: o papel do alimento no bem-estar emocional

 

Pesquisa encontrou associação entre o uso de pílulas anticoncepcionais e maior frequência de episódios de alimentação motivada por questões emocionais, mas os resultados não comprovam uma relação de causa e efeito

A relação entre anticoncepcionais e mudanças no apetite é uma dúvida frequente entre as mulheres. Agora, uma pesquisa recente acrescenta um novo elemento à discussão: o possível vínculo entre o uso da pílula anticoncepcional e episódios de alimentação motivada por emoções.

O estudo chamou atenção porque investigou não apenas a quantidade de alimentos consumidos, mas também situações em que a pessoa come em resposta a sentimentos como ansiedade, tristeza, estresse ou outras emoções.

Os resultados, porém, precisam ser interpretados com cautela. Encontrar uma associação não significa que o anticoncepcional seja responsável pela fome emocional.

O que é fome emocional?

A fome emocional acontece quando a vontade de comer aparece principalmente como resposta a emoções, e não necessariamente porque o organismo precisa de energia.

Estresse, ansiedade, tristeza, tédio e cansaço podem influenciar o comportamento alimentar.

Em alguns momentos, a pessoa pode procurar alimentos específicos, principalmente os mais palatáveis, como doces e alimentos ricos em gordura ou carboidratos.

Isso é diferente da fome fisiológica, que tende a surgir de maneira gradual e pode ser acompanhada por sinais físicos.

Na prática, entretanto, as duas experiências podem se misturar.

O que a pesquisa investigou?

Pesquisadores analisaram a relação entre o uso de contraceptivos orais e comportamentos alimentares relacionados às emoções.

Os resultados apontaram uma associação entre o uso da pílula e maior frequência de alimentação motivada por questões emocionais.

Isso significa que, no grupo estudado, as mulheres que utilizavam anticoncepcionais apresentaram maior frequência desse comportamento.

Mas existe uma diferença importante entre dizer que duas situações estão associadas e afirmar que uma provoca a outra.

O estudo não permite concluir que o anticoncepcional seja a causa da fome emocional.

Por que não podemos dizer que a pílula provoca fome emocional?

O comportamento alimentar é influenciado por muitos fatores.

Sono, estresse, ansiedade, rotina, alimentação, atividade física, condições de saúde e características individuais podem interferir na relação de uma pessoa com a comida.

Além disso, estudos observacionais podem identificar associações sem conseguir determinar exatamente o que veio primeiro ou qual fator é responsável pelo resultado.

Por isso, o resultado deve ser encarado como uma pista para novas pesquisas, e não como uma prova de que todas as mulheres que usam anticoncepcionais terão mais fome emocional.

Anticoncepcional engorda?

Essa também é uma das principais preocupações de quem utiliza contraceptivos hormonais.

O efeito sobre o peso corporal pode variar conforme o método, a composição hormonal e as características individuais.

Além disso, alterações de peso podem ter diversas causas e nem sempre estão diretamente relacionadas ao anticoncepcional.

Por isso, se uma mulher percebe mudanças importantes no apetite ou no peso depois de iniciar um método contraceptivo, é importante conversar com o profissional responsável pelo acompanhamento.

A decisão de trocar ou interromper um anticoncepcional não deve ser tomada apenas com base em informações encontradas na internet.

Como identificar a fome emocional?

Alguns sinais podem ajudar a perceber quando a alimentação está sendo influenciada pelas emoções.

Por exemplo:

  • vontade repentina de comer;
  • desejo específico por determinados alimentos;
  • comer mesmo sem fome física;
  • buscar comida em momentos de ansiedade ou estresse;
  • comer rapidamente;
  • perceber que a alimentação está sendo usada como forma de aliviar sentimentos;
  • sentir culpa depois de comer.

Ter episódios ocasionais não significa necessariamente que exista um transtorno alimentar.

O problema merece maior atenção quando o comportamento se torna frequente, provoca sofrimento ou interfere na rotina.

O que fazer quando a alimentação está ligada às emoções?

O primeiro passo é observar os padrões.

Pergunte a si mesma:

Estou realmente com fome ou estou tentando aliviar alguma emoção?

Não se trata de proibir determinados alimentos ou criar uma relação de culpa com a comida.

A alimentação emocional pode estar relacionada a questões psicológicas e comportamentais que precisam ser compreendidas.

Em alguns casos, acompanhamento com psicólogo, nutricionista ou médico pode ajudar a identificar os fatores envolvidos.

E se isso começou depois do anticoncepcional?

Se uma mudança importante no apetite, no peso ou no comportamento alimentar apareceu depois do início de um anticoncepcional, vale conversar com o ginecologista.

O profissional poderá avaliar o método utilizado, o histórico da mulher, outros medicamentos, alterações hormonais e possíveis fatores emocionais ou metabólicos.

Existem diferentes opções contraceptivas, e a escolha deve considerar as características e necessidades de cada mulher.

Informação antes da decisão

Pesquisas que investigam a relação entre anticoncepcionais e comportamento alimentar são importantes porque ajudam a ampliar o conhecimento sobre os possíveis efeitos dos métodos hormonais.

Mas um único estudo não é suficiente para estabelecer uma relação de causa e efeito.

Se você utiliza anticoncepcional e percebeu mudanças persistentes no apetite, peso ou comportamento alimentar, converse com um profissional de saúde antes de interromper ou trocar o método.

Cuidar da saúde da mulher também significa tomar decisões contraceptivas com informação, acompanhamento e atenção às particularidades de cada organismo.

 

Fonte: pauta originalmente publicada pela Folha de S.Paulo, com base em pesquisa científica sobre uso de anticoncepcionais e alimentação motivada por questões emocionais. Conteúdo adaptado, contextualizado e reescrito editorialmente pela CLINIA MULHER.