Depois do câncer de mama: os impactos na sexualidade que muitas mulheres enfrentam em silêncio

 

Tratamento pode afetar desejo, lubrificação, autoestima e intimidade. Especialistas defendem que a recuperação da mulher também inclua atenção à saúde sexual e à qualidade de vida.

Sexualidade após câncer de mama: o que muda e como melhorar

Quando se fala em câncer de mama, prevenção, diagnóstico precoce e tratamento costumam ocupar o centro das campanhas do Outubro Rosa. Mas existe uma realidade que recebe bem menos atenção: como fica a vida íntima da mulher durante e depois do tratamento?

Vencer ou controlar a doença não significa necessariamente que todos os impactos ficaram para trás. Para algumas mulheres, as consequências chegam à sexualidade, à autoestima, à relação com o próprio corpo e à intimidade com o parceiro.

E muitas enfrentam essas mudanças em silêncio.

O tratamento pode mudar a vida sexual

De acordo com especialistas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), diferentes tratamentos contra o câncer de mama podem interferir na sexualidade feminina.

Entre as queixas que podem aparecer estão:

  • redução do desejo sexual;
  • secura vaginal;
  • diminuição da lubrificação;
  • dor durante a relação;
  • dificuldade de excitação;
  • cansaço;
  • alterações de humor e do sono;
  • mudanças na autoestima e na percepção do próprio corpo.

A quimioterapia pode afetar o funcionamento dos ovários e diminuir a produção hormonal temporária ou permanentemente.

Já alguns medicamentos utilizados contra tumores sensíveis aos hormônios reduzem a produção ou bloqueiam a ação do estrogênio, podendo provocar uma espécie de menopausa induzida.

Um problema mais frequente do que parece

Um estudo brasileiro publicado em 2026 e citado pela FEBRASGO acompanhou 774 mulheres com câncer de mama sem metástase que utilizavam medicamentos para bloquear a ação hormonal.

Entre as 346 participantes que haviam mantido relações sexuais nas quatro semanas anteriores à avaliação, 79,8% apresentaram disfunção sexual, considerando aspectos como desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor.

O número ajuda a revelar uma realidade que ainda recebe pouca atenção.

Saúde sexual não é um detalhe na recuperação. Ela também faz parte da qualidade de vida.

A relação com o próprio corpo também pode mudar

Cirurgias, reconstrução mamária e radioterapia podem provocar mudanças na aparência e na sensibilidade das mamas.

Para algumas mulheres, olhar-se no espelho depois do tratamento significa iniciar um novo processo de reconhecimento do próprio corpo.

Cicatrizes, alterações nas mamas, queda de cabelo durante determinadas etapas do tratamento e mudanças de peso podem interferir na autoestima.

Há ainda mulheres que percebem alterações na sensibilidade das mamas depois de procedimentos cirúrgicos.

Tudo isso pode repercutir na intimidade.

Dor pode criar um ciclo de afastamento

Quando a relação sexual passa a causar desconforto, é natural que algumas mulheres comecem a evitá-la.

O problema é que esse receio pode criar um ciclo: o medo da dor reduz a frequência das relações, pode diminuir a excitação e a lubrificação e tornar uma nova tentativa ainda mais desconfortável.

Por isso, sentir dor não deve ser simplesmente aceito como uma consequência inevitável do tratamento.

Existem possibilidades de acompanhamento e cuidado.

Por que tantas mulheres não contam ao médico?

Vergonha, medo de julgamento e até a sensação de que falar sobre sexo seria pouco importante diante de uma doença como o câncer fazem com que algumas pacientes permaneçam caladas.

Mas perguntas sobre desejo, dor, lubrificação, prazer e intimidade também deveriam fazer parte do acompanhamento da mulher.

Se o problema interfere na qualidade de vida, merece atenção.

Existe tratamento para esses sintomas?

Dependendo da causa e da situação individual de cada paciente, o cuidado pode envolver diferentes estratégias.

Lubrificantes e hidratantes vaginais, fisioterapia do assoalho pélvico, acompanhamento psicológico e terapia sexual estão entre as possibilidades mencionadas pelos especialistas.

Outras intervenções precisam ser avaliadas individualmente pela equipe responsável pelo tratamento oncológico.

Um cuidado especialmente importante é não utilizar hormônios ou interromper medicamentos contra o câncer por conta própria.

Mulheres com histórico de câncer de mama precisam discutir qualquer tratamento hormonal com seus médicos, porque a indicação depende das características do tumor e da condição clínica individual.

Sobreviver também é voltar a viver

O Outubro Rosa é fundamental para lembrar mulheres sobre prevenção e diagnóstico precoce.

Mas a conversa não precisa terminar quando termina o tratamento.

A mulher que passou pelo câncer continua tendo direito à autoestima, ao afeto, à intimidade e ao prazer.

Falar sobre saúde sexual depois do câncer de mama ajuda a romper um silêncio que pode fazer muitas mulheres acreditarem que precisam simplesmente conviver com os sintomas.

A vida íntima pode mudar depois do câncer. Isso não significa que ela acabou.

Buscar orientação e conversar abertamente com a equipe de saúde pode ser o primeiro passo para reconstruir essa parte da vida com segurança, informação e respeito ao próprio tempo.

 

Fonte: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), publicação de 1º de outubro de 2026. Conteúdo adaptado e reescrito editorialmente pelo Clinia Mulher.