Chip da beleza: entidades médicas pedem proibição de implantes hormonais manipulados

 

Doze entidades médicas nacionais e internacionais alertam para falta de evidências de segurança e eficácia e apontam possíveis riscos cardiovasculares, hepáticos e metabólicos.

O que é chip da beleza? - Dr. Daniel Stellin

O chamado “chip da beleza” voltou ao centro do debate sobre saúde da mulher. Doze entidades médicas e científicas divulgaram um posicionamento conjunto pedindo à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) medidas para proibir os implantes hormonais manipulados que vêm sendo oferecidos com promessas que incluem emagrecimento, ganho de massa muscular, aumento da libido, rejuvenescimento e alívio de sintomas da menopausa.

O documento foi divulgado durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa e reúne entidades de diferentes especialidades, entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Brasileira de Diabetes.

O principal argumento é a falta de estudos clínicos de qualidade que comprovem a segurança e a eficácia desses implantes manipulados para as finalidades anunciadas.

Afinal, o que é o chamado “chip da beleza”?

Apesar do nome popular, não se trata de um chip eletrônico.

A expressão passou a ser utilizada para descrever implantes colocados sob a pele capazes de liberar substâncias no organismo durante determinado período.

Entre os hormônios associados a esses implantes estão gestrinona, testosterona e estradiol. As entidades também manifestaram preocupação com a inclusão de outras substâncias em determinadas formulações manipuladas.

Um dos problemas apontados é justamente a associação desses produtos a promessas estéticas, como perda de gordura, aumento de massa muscular e melhora do desempenho físico.

Quais são os riscos apontados?

Segundo as entidades médicas, o uso inadequado de implantes hormonais pode estar relacionado a efeitos adversos importantes.

Entre os problemas citados estão alterações cardiovasculares e metabólicas, complicações hepáticas, tromboembolismo e acidente vascular cerebral (AVC), além de possíveis impactos relacionados ao risco de câncer.

Também podem ocorrer efeitos como acne intensa, queda de cabelo e alterações na voz, dependendo das substâncias utilizadas e da exposição hormonal.

Outro ponto de preocupação é que, uma vez implantado o produto, pode ser mais difícil interromper rapidamente a exposição ou ajustar a dose diante do surgimento de efeitos adversos.

“Bioidêntico” não significa automaticamente seguro

Outro alerta feito pelas sociedades médicas envolve o uso da palavra “bioidêntico” na divulgação desses tratamentos.

O termo pode transmitir ao paciente uma ideia de produto mais natural ou automaticamente seguro.

As entidades, porém, destacam que essa denominação, isoladamente, não representa garantia de eficácia ou segurança.

Por isso, promessas relacionadas a hormônios devem ser avaliadas com cautela, especialmente quando associadas a resultados rápidos de emagrecimento, rejuvenescimento ou ganho de massa muscular.

Terapia hormonal não é a mesma coisa que “chip da beleza”

Essa diferença é fundamental.

O posicionamento das entidades não representa uma condenação à terapia hormonal como um todo.

Existem tratamentos hormonais utilizados na medicina, inclusive durante o climatério e a menopausa, que podem ser indicados após avaliação individual da paciente. Há medicamentos e diferentes vias de administração que permitem acompanhamento e ajuste da dose pelo profissional responsável.

O questionamento das entidades está concentrado nos implantes hormonais manipulados utilizados sem evidências adequadas para determinadas finalidades, principalmente quando comercializados com promessas estéticas.

Portanto, mulheres que fazem terapia hormonal prescrita não devem interromper o tratamento por conta própria. Qualquer mudança precisa ser discutida com o médico responsável.

Por que o assunto merece atenção das mulheres?

A busca por emagrecimento, disposição, melhora da libido e redução dos sintomas da menopausa movimenta um mercado cada vez maior.

Nesse cenário, soluções apresentadas como rápidas ou personalizadas podem parecer especialmente atraentes.

Mas hormônios têm efeitos em diferentes sistemas do organismo e sua utilização exige avaliação médica, indicação adequada e acompanhamento.

Antes de iniciar qualquer tratamento hormonal, vale perguntar ao profissional:

  • Qual é exatamente a substância utilizada?
  • Existe indicação médica comprovada para o meu caso?
  • Quais são os possíveis efeitos adversos?
  • Existem alternativas aprovadas e mais bem estudadas?
  • Como será feito o acompanhamento durante o tratamento?

Informação também é uma forma de cuidado. Quando uma promessa estética envolve hormônios, o caminho mais seguro é substituir a pressa por uma avaliação individualizada.

 

Fonte: Folha de S.Paulo, VivaBem/UOL e informações regulatórias da Anvisa. Conteúdo adaptado, atualizado e reescrito editorialmente pelo Clinia Mulher.