Dupla jornada: como a sobrecarga de cuidados afeta a carreira das mulheres

 

A dupla jornada que começa depois do expediente

 

SINTIBREF/DF | Dupla jornada: como a sobrecarga afeta a saúde da mulher

 

Para muitas mulheres, o fim do expediente não significa o fim do trabalho.

Depois de cumprir suas atividades profissionais, começa uma segunda jornada formada por tarefas domésticas, cuidados com filhos, acompanhamento de familiares idosos, organização da casa e uma série de responsabilidades que nem sempre são percebidas como trabalho.

Dados do IBGE citados em entrevista pela socióloga Maíra Machado, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, mostram que as mulheres brasileiras dedicam, em média, significativamente mais tempo do que os homens às atividades de cuidado não remuneradas.

Com base na PNAD Contínua de 2022, a diferença chega a aproximadamente 10 horas por semana em atividades domésticas e de cuidado — o equivalente a cerca de 40 horas ao longo de um mês.

Mas existe ainda uma parte dessa rotina que os números não conseguem medir completamente.

O peso invisível da carga mental

Não é apenas a quantidade de tarefas que pesa sobre as mulheres.

Existe também a responsabilidade de lembrar, organizar, antecipar problemas e tomar decisões relacionadas aos cuidados da família.

É a chamada carga mental.

Quem vai levar a criança ao médico? Quem vai lembrar da reunião da escola? Quem vai comprar o medicamento? Quem ficará em casa se o filho adoecer? Quem vai acompanhar um familiar idoso?

Segundo Maíra Machado, essa gestão dos cuidados costuma recair principalmente sobre as mulheres.

E isso significa que, mesmo quando algumas tarefas são divididas, a responsabilidade pela organização de toda a rotina familiar pode continuar concentrada em uma única pessoa.

Quando a maternidade interfere na carreira

A chegada dos filhos pode representar um momento especialmente delicado na trajetória profissional feminina.

Dados do IBGE citados na entrevista mostram que a participação no mercado de trabalho entre mulheres com crianças de até seis anos é menor do que entre homens que também têm filhos nessa faixa etária.

Entre as mulheres com crianças pequenas, a taxa de participação indicada é de 56%, enquanto entre os homens com filhos nessa mesma faixa etária chega a 89%.

Entre mulheres sem filhos pequenos, a participação sobe para 66%.

Os números ajudam a mostrar que a responsabilidade pelos cuidados pode influenciar diretamente as escolhas profissionais das mulheres.

Em muitos casos, são elas que reduzem a jornada, recusam oportunidades, interrompem a carreira ou deixam o mercado de trabalho para atender às necessidades da família.

O impacto também aparece no bolso

A desigualdade na divisão dos cuidados pode produzir consequências que vão muito além do ambiente profissional.

Menos tempo de trabalho remunerado pode significar:

  • menor renda;
  • menor possibilidade de crescimento profissional;
  • menos contribuições previdenciárias;
  • menor independência financeira;
  • dificuldade para retornar ao mercado depois de uma pausa;
  • perda de oportunidades de qualificação e promoção.

A diferença salarial também contribui para ampliar esse cenário.

Segundo os dados apresentados na entrevista, as mulheres recebem, em média, menos do que os homens, enquanto as desigualdades são ainda maiores quando são consideradas questões raciais.

Para mulheres negras, portanto, a sobrecarga dos cuidados pode se somar a outras barreiras existentes no mercado de trabalho.

Cuidar não deveria ser responsabilidade de uma única pessoa

Para a socióloga Maíra Machado, a discussão precisa mudar de perspectiva.

Em vez de tratar o cuidado como uma responsabilidade individual das famílias — e, principalmente, das mulheres —, é necessário enxergá-lo como uma questão social.

Creches com horários compatíveis com a jornada de trabalho, escolas em período integral e serviços destinados ao cuidado de idosos e pessoas que necessitam de assistência são exemplos de políticas públicas que podem ajudar a reduzir essa sobrecarga.

A questão tende a ganhar ainda mais importância diante do envelhecimento da população brasileira.

Com mais pessoas idosas, a demanda por cuidados também deverá crescer, tornando ainda mais urgente a construção de uma rede capaz de dividir essa responsabilidade.

Dividir não é “ajudar”

Existe uma diferença importante entre ajudar e compartilhar responsabilidades.

Quando um homem “ajuda” a mulher nas tarefas domésticas, a ideia pode sugerir que a responsabilidade principal continua sendo dela.

Compartilhar significa reconhecer que a casa, os filhos e os cuidados familiares são responsabilidades de todos os adultos que fazem parte daquela estrutura.

Essa mudança também começa na infância.

Segundo Maíra Machado, meninas são frequentemente incentivadas desde cedo a cuidar da casa e de outras pessoas, enquanto os meninos nem sempre recebem o mesmo estímulo.

Mas o cuidado não é uma habilidade exclusivamente feminina.

Cuidar é uma competência que pode ser aprendida por qualquer pessoa.

A mudança começa dentro de casa, mas não termina nela

Dividir as tarefas domésticas de maneira mais equilibrada é uma atitude importante, mas a questão da dupla jornada não pode ser resolvida apenas individualmente.

É necessário pensar em condições de trabalho, políticas públicas, acesso a creches, serviços de cuidado, igualdade salarial e participação masculina nas responsabilidades familiares.

A mulher não deveria precisar escolher entre cuidar da família e construir sua própria trajetória profissional.

Afinal, cuidar de outras pessoas é uma responsabilidade humana — não uma obrigação feminina.

Para refletir

Você sente que precisa administrar sozinha a rotina da casa e da família, mesmo quando outras pessoas também participam das tarefas?

Reconhecer essa carga é o primeiro passo para começar a redistribuí-la.

Fonte original: CNN Brasil, a partir de entrevista com Maíra Machado, socióloga e diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, com dados do IBGE/PNAD Contínua.