Ler por prazer: o que a ciência aponta sobre a relação entre livros e bem-estar

Publicação científica reúne evidências que associam a leitura à saúde mental e à cognição; interesse pelo conteúdo e convivência entre leitores fazem parte dessa experiência.

 

A importância e os benefícios de uma boa leitura

Reservar um momento para acompanhar uma história pode representar mais do que uma opção de lazer. A leitura por prazer aparece associada a indicadores de bem-estar, menor estresse e melhor desempenho cognitivo em pesquisas discutidas em um editorial publicado em 15 de setembro na revista científica Psychological Medicine.

O texto é assinado por Barbara Sahakian e Christelle Langley, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, e Vicki Perrin, da organização The Queen’s Reading Room. As autoras reuniram resultados de levantamentos, estudos de acompanhamento e pesquisas com exames de imagem para discutir o papel da leitura em diferentes fases da vida.

Entre adultos, os trabalhos analisados apontam associações com maior empatia, menor solidão e melhor bem-estar. Esses resultados, porém, precisam ser interpretados com cuidado: encontrar uma relação entre o hábito de ler e determinado benefício não comprova que a leitura seja, sozinha, responsável por ele.

O interesse pela leitura está no centro da discussão

A publicação concentra a atenção na leitura por prazer, escolhida pelo interesse no conteúdo. Essa experiência pode assumir diferentes formas e não fica restrita a obras clássicas ou livros extensos.

Em apresentação sobre o trabalho, o Clare Hall, da Universidade de Cambridge, destaca romances, revistas, quadrinhos, histórias em formato de graphic novel e materiais digitais entre as possibilidades. O ponto de partida é encontrar uma leitura com a qual a pessoa queira se envolver.

Essa diversidade amplia as portas de entrada para quem perdeu o hábito ou nunca se aproximou dos livros. Uma história curta, uma narrativa ilustrada ou um tema de interesse pessoal podem ocupar esse espaço, conforme as preferências de cada leitora.

Compartilhar histórias também aproxima pessoas

A leitura costuma ser associada a um momento individual, mas pode ganhar uma dimensão coletiva. Clubes do livro e grupos de leitura oferecem oportunidades para conversar, conhecer diferentes interpretações e manter contato com outras pessoas.

Na divulgação da pesquisa pela Universidade de Cambridge, as autoras destacam que esses encontros podem trazer benefícios adicionais pela interação social. O livro funciona como assunto em comum e ponto de partida para a convivência.

Essa possibilidade também interessa a pessoas mais velhas ou com mobilidade reduzida, para quem algumas atividades coletivas podem ser menos acessíveis. A participação precisa considerar as condições e os interesses de cada pessoa, incluindo formatos presenciais ou remotos.

Mulheres relatam recorrer à cultura para cuidar do bem-estar

No Brasil, uma pesquisa da Fundação Itaú ajuda a contextualizar a relação entre atividades culturais e saúde emocional. Na sexta edição do levantamento Hábitos Culturais, 38% das mulheres entrevistadas disseram recorrer a práticas culturais para melhorar o bem-estar, ante 28% dos homens.

A categoria reúne diferentes atividades, como ouvir música, assistir à televisão, ler livros e dançar. Portanto, os percentuais não representam exclusivamente o hábito de leitura.

Realizado pelo Observatório Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha, o levantamento ouviu 2.432 pessoas de 16 a 65 anos. Os resultados mostram como os entrevistados percebem e utilizam a cultura no cotidiano; não medem, por si só, a eficácia dessas atividades como tratamento.

Retomar o hábito sem acrescentar uma cobrança

Para quem deseja voltar a ler, uma possibilidade é começar por um assunto que desperte curiosidade e reservar um momento compatível com a rotina. Experimentar contos, crônicas ou capítulos curtos pode tornar esse reencontro mais viável.

Trocar um livro que não despertou interesse e conversar sobre uma história com alguém também são maneiras de explorar preferências. Quantidade de páginas e velocidade de leitura não precisam definir o valor dessa experiência.

As evidências discutidas pelas pesquisadoras reforçam o interesse pela leitura como parte de uma vida com atividades prazerosas e estímulos variados. Os livros podem integrar o cuidado cotidiano, sem substituir acompanhamento profissional quando existe sofrimento emocional.

Fontes: Psychological Medicine — publicação científica, Clare Hall — Universidade de Cambridge e Fundação Itaú — pesquisa Hábitos Culturais.

Conteúdo adaptado e reescrito editorialmente pelo Clinia Mulher.