Mulheres cristãs estão mudando a forma de enxergar o feminismo, aponta estudo

Durante muito tempo, a palavra feminismo foi associada, por muitas mulheres cristãs, a ideias que pareciam incompatíveis com a fé. Mas essa percepção pode estar mudando.
Um estudo realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) identificou uma transformação na maneira como mulheres evangélicas entrevistadas passaram a compreender o tema. O levantamento acompanhou 180 mulheres entre 2022 e 2025 e revelou que, no último ano da pesquisa, uma parcela significativa passou a enxergar a possibilidade de conciliar a identidade cristã com algumas pautas tradicionalmente associadas ao feminismo.
A pesquisa foi construída a partir de uma escuta continuada. A cada ano, 45 mulheres, entre 16 e 65 anos, participaram das entrevistas. A maioria pertencia às classes C e D e era formada por mulheres pretas e pardas.
Quando feminismo deixa de ser uma palavra distante
Um dos principais resultados apareceu justamente na relação das entrevistadas com a palavra feminismo.
Segundo o levantamento, até 2024 muitas participantes relacionavam o movimento principalmente a questões como aborto, uma suposta oposição aos homens e uma visão considerada incompatível com os ensinamentos cristãos.
Essa percepção começou a mudar em 2025.
Naquele ano, seis em cada dez participantes disseram considerar possível ser cristã e feminista ao mesmo tempo. Para essas mulheres, o conceito passou a estar mais relacionado a questões concretas do cotidiano, como direitos, combate à violência contra a mulher e reconhecimento das dificuldades enfrentadas por elas.
A mudança não significa, necessariamente, abandono de valores religiosos ou familiares. Pelo contrário: o estudo mostra mulheres tentando conciliar diferentes dimensões da própria identidade.
Fé e autonomia podem caminhar juntas
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a valorização da autonomia feminina.
As entrevistadas defendem o direito de trabalhar, conquistar o próprio dinheiro e participar das decisões relacionadas à própria vida. Ao mesmo tempo, muitas continuam valorizando a família, o casamento e princípios religiosos.
Essa combinação mostra que a realidade feminina pode ser muito mais complexa do que os estereótipos costumam sugerir.
Para muitas dessas mulheres, defender a família não significa abrir mão da própria autonomia.
E desejar uma vida profissional também não significa abandonar a fé.
A divisão das tarefas domésticas também entrou na conversa
A sobrecarga dentro de casa aparece como outra questão importante.
As mulheres entrevistadas relatam cansaço diante da quantidade de responsabilidades domésticas acumuladas, enquanto defendem uma divisão mais justa das tarefas entre homens e mulheres.
É uma discussão que ultrapassa o campo político e chega diretamente à rotina.
Quem cuida da casa?
Quem cuida dos filhos?
Quem trabalha fora?
Quem administra as contas?
Quem consegue descansar?
Essas perguntas fazem parte da vida de milhões de mulheres e ajudam a explicar por que temas relacionados à igualdade podem ganhar novos significados quando observados a partir da experiência cotidiana.
Violência contra a mulher também influencia essa percepção
A violência doméstica aparece como uma preocupação relevante entre as participantes.
O estudo aponta que muitas entrevistadas demonstram desconfiança em relação à capacidade do Estado de protegê-las adequadamente diante da violência doméstica. A pesquisa também identificou apoio à educação sexual nas escolas, embora muitas participantes rejeitem expressões abstratas como “ideologia de gênero”.
Nesse ponto, a experiência pessoal parece ter peso importante.
Quando uma mulher conhece ou vivencia situações de violência, determinados debates deixam de ser apenas conceitos políticos ou ideológicos e passam a fazer parte da realidade.
A igreja continua tendo um papel importante
Apesar das mudanças na maneira de enxergar determinadas pautas, a fé permanece central para as mulheres ouvidas.
De acordo com a pesquisa, muitas enxergam a igreja principalmente como um espaço de oração, espiritualidade e busca por paz. Algumas também demonstram resistência ao uso dos templos como ambientes de disputa eleitoral.
Isso ajuda a compreender outro ponto importante do estudo: ser evangélica não significa pensar de uma única maneira.
Existem diferentes experiências, opiniões, histórias familiares, condições econômicas e formas de viver a própria fé.
Uma mulher não cabe em uma única definição
Talvez essa seja uma das principais conclusões que o estudo oferece.
A mulher cristã pode valorizar a família e, ao mesmo tempo, desejar independência financeira.
Pode defender seu casamento e querer dividir melhor as responsabilidades domésticas.
Pode ter valores conservadores em determinadas questões e posições diferentes em outras.
Pode rejeitar o rótulo “feminista” e, ainda assim, defender direitos e pautas relacionadas à proteção das mulheres.
E pode, também, entender que sua fé e sua busca por autonomia não precisam estar em lados opostos.
A pesquisa ajuda justamente a questionar a ideia de que mulheres evangélicas formam um grupo homogêneo.
O que o estudo realmente mostra?
É importante fazer uma ressalva.
Por ser uma pesquisa qualitativa, o levantamento não representa estatisticamente todas as mulheres evangélicas brasileiras. O objetivo foi aprofundar percepções e experiências das participantes, e não produzir uma fotografia numérica de toda a população evangélica feminina.
Ainda assim, os relatos ajudam a compreender transformações que podem estar acontecendo na forma como algumas mulheres conciliam fé, família, trabalho, autonomia e identidade.
Mais do que responder se uma mulher pode ser cristã e feminista, o estudo provoca uma reflexão maior:
até que ponto precisamos escolher entre a nossa fé e o desejo de sermos donas da nossa própria história?
Para muitas mulheres, talvez a resposta esteja justamente na possibilidade de construir uma identidade que reúna essas diferentes dimensões — sem precisar caber perfeitamente em nenhum rótulo.
Fonte original: Folha de S.Paulo, reportagem de Anna Virginia Balloussier, publicada em 2 de setembro de 2026, sobre estudo do Instituto de Estudos da Religião (Iser).
