Ter filhos não garante companhia ou cuidado na velhice, aponta debate sobre autonomia feminina

 

Ter filhos garante uma velhice menos solitária? A autonomia feminina muda essa ideia

A psicologia explica que mulheres que atravessam os 40 e 50 anos morando  sozinhas “não estão mais fechadas para o amor, elas constroem uma autonomia  emocional que muda a forma como escolhem

 

Mudanças nos padrões familiares e nas escolhas femininas ampliam o debate sobre envelhecimento, maternidade e formas de construir uma vida com autonomia

A ideia de que ter filhos seria uma espécie de garantia de companhia e cuidado na velhice está sendo cada vez mais questionada. Mudanças no comportamento feminino, o crescimento do número de mulheres que optam por não ter filhos e novas formas de organização familiar colocam em discussão uma questão que durante muito tempo pareceu ter uma resposta pronta: quem cuidará de nós quando envelhecermos?

O tema ganhou destaque em uma coluna publicada pela antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mirian Goldenberg, na Folha de S.Paulo. A autora questiona justamente a associação automática entre maternidade e proteção contra a solidão na velhice.

Ter filhos não é garantia de companhia no futuro

A maternidade pode representar uma experiência importante e desejada para muitas mulheres, mas não deve ser tratada como uma espécie de “seguro” para a velhice.

Filhos constroem suas próprias vidas, formam famílias, mudam de cidade e enfrentam suas próprias dificuldades. Além disso, a existência de vínculos familiares não elimina necessariamente sentimentos como solidão, isolamento ou falta de apoio.

O envelhecimento, portanto, exige uma reflexão mais ampla sobre a construção de redes de relacionamento e de suporte ao longo da vida.

Número de mulheres sem filhos aumenta

Os dados apresentados na discussão mostram que a realidade brasileira está mudando.

Segundo informações do Censo 2022, 16,1% das mulheres brasileiras entre 50 e 59 anos nunca haviam tido filhos. Em 2000, esse percentual era de 10%. Na região Sudeste, o índice chegou a 18%.

Também cresce o número de pessoas que vivem sozinhas. Dados citados na coluna apontam que, em 2024, 18,6% dos domicílios brasileiros eram unipessoais. Entre as pessoas que moravam sozinhas, 44,9% eram mulheres, e mais da metade dessas mulheres tinha 60 anos ou mais.

Esses números ajudam a mostrar que viver sozinha não é necessariamente uma situação excepcional. Para uma parcela crescente da população, trata-se de uma realidade que precisa ser acompanhada por políticas públicas, planejamento e redes de apoio.

Envelhecer com autonomia exige preparação

A discussão sobre quem cuidará de uma mulher na velhice também pode ser transformada em outra pergunta: o que estamos fazendo hoje para construir uma velhice com mais autonomia?

Saúde, estabilidade financeira, moradia adequada, vínculos sociais, amizades e participação comunitária podem ter um papel importante nessa preparação.

A autonomia não significa necessariamente envelhecer sem precisar de ninguém. Pelo contrário: significa poder construir relações de apoio sem colocar sobre uma única pessoa — ou exclusivamente sobre os filhos — a responsabilidade pelo cuidado.

Amizades também podem fazer parte da rede de apoio

As relações de amizade ganham importância quando se fala sobre envelhecimento.

Na pesquisa mencionada por Mirian Goldenberg, mulheres entrevistadas apresentaram respostas diferentes das dadas pelos homens quando questionadas sobre quem cuidaria delas na velhice. Muitas apontaram para si mesmas e, posteriormente, para as amigas. Algumas mulheres casadas e com filhos também relataram o desejo de envelhecer próximas de amigas.

A mudança revela que os vínculos afetivos podem assumir diferentes formatos ao longo da vida.

A escolha de ser mãe ou não deve ser respeitada

A maternidade continua sendo uma escolha importante para milhões de mulheres. Mas optar por não ter filhos também faz parte da realidade contemporânea.

Transformar qualquer uma dessas escolhas em obrigação ou julgamento pode reforçar estigmas que ainda pesam sobre as mulheres.

Mais do que perguntar a uma mulher quem cuidará dela no futuro, talvez seja necessário discutir como a sociedade pode criar condições para que todas as pessoas envelheçam com dignidade, segurança, vínculos afetivos e autonomia — tenham filhos ou não.

Envelhecimento também é planejamento

Pensar na velhice não precisa ser motivo de medo. Pode ser uma oportunidade para começar a construir, ainda no presente, uma rede de apoio que envolva família, amigos, comunidade e serviços.

A pergunta “quem vai cuidar de mim?” pode, então, ganhar uma resposta mais ampla: como quero viver quando envelhecer e o que preciso construir hoje para chegar lá com mais autonomia?

 

 

Fonte de referência: Folha de S.Paulo, 

Texto: Conteúdo jornalístico produzido e adaptado editorialmente pelo Clinia Mulher, a partir do tema e das informações divulgadas pela fonte de referência.